SE EU CONSIGO, TU TAMBÉM CONSEGUES – Pedro Guerra e Gracinda Martins

O blog do sembarreiras.org apresenta aqui uma nova secção dedicada a histórias de vida que constituem um exemplo de perseverança e de concretização de objectivos, ultrapassando múltiplas barreiras.

Como história inaugural apresentamos o testemunho do José Guerra, ex-aluno da Universidade de Aveiro, que aos 16 anos se viu privado do uso dos seus membros superiores. Esta barreira não impediu de encetar esforços e procurar a integração e a felicidade.

Leiam o seu testemunho e repitam a ideia que a aquisição de uma deficiência não é necessariamente o fim.

Nome: José Pedro Soares Guerra

Ex-aluno da Universidade de Aveiro, licenciado em Administração Pública

Data de nascimento: 27/02/1978

Localidade: Oliveira do Bairro

Estado Civil: Solteiro/Comprometido

Desporto: Pratico natação

Pratico Atletismo

Jogo Futsal

Ocupação: Vou ao Cinema

Gosto de estar com os amigos

Namorar

Estar no Computador

Ver TV

O acidente

Tinha 16 anos e trabalhava como serralheiro desde os 13, altura em que concluí o 6.ºano de escolaridade e abandonei a escola.

No dia 26 de Outubro de 1994, embarquei numa nova fase da minha vida. Nesse dia, sofri um choque eléctrico de tal forma forte que me levou a ficar sem os dois membros superiores.

Quando acordei do coma a primeira reacção foi: “Seja o que Deus quiser”.

A escola

Comecei a estudar à noite, mas não foi uma boa experiência. Acabava por não estudar, preferia a “borga”. Afinal, estava todo o dia fechado em casa e isso para mim era frustrante. Desta forma, não cheguei a frequentar o ensino nocturno por um ano completo.

A partir de 1997, decidi voltar a estudar de dia. Entrei para o 7.ºano, já com 18 anos. A reacção das pessoas continuava, de certa forma, a manter-se como um obstáculo, mas não me sentia inferior.

Em Março de 1998 tomei uma decisão: deixar de fumar.

Sem repetir nenhum ano, entrei no secundário para o terceiro agrupamento, económico-social, em 2000.

nataçãoA natação

Em 1999, fui para a natação a partir de uma simples conversa entre amigos.

Tive um curto período de aprendizagem, mas uma rápida progressão. Devido à grande aplicação e força de vontade, logo na época 1999/2000, participei nos Campeonatos Nacionais de Inverno e de Verão da ANDDEMOT – Associação Nacional de Desporto para Deficientes Motores.


carroO carro

Pedi o atestado médico, mas demorou muito tempo, 2 anos, para o ter.

Foram colocados muitos obstáculos mas consegui!!!

Ao fim de 4 anos, tive a carta e um carro para conduzir. Note-se, no entanto, que depois de estar tudo normalizado, demorei mais ou menos 3 meses a tirar a carta.

Agora façam as contas à burocracia…


As próteses – A Universidade

Tive outras próteses antes destas que tenho actualmente. As primeiras foram colocadas pelo Centro de Medicina e Reabilitação de Alcoitão em 1998. Usei-as durante o 7º, 8º e 9º anos, mas, como tinha crescido fisicamente, não assentavam bem no corpo e também tiveram uma avaria, foram para reparar mas não voltei a tê-las.

Fiz o secundário sem próteses, escrevia com a boca e mais tarde tinha um funcionário da escola ao meu lado a escrever enquanto eu ditava. No decorrer do secundário, um colega meu inventou uma “prótese” rudimentar, composta por um varão da casa de banho, um molde de gesso para o ombro direito, um cinto de segurança automóvel e fivelas. Esta prótese só me permitia escrever, cheguei a utilizá-la na Universidade.

Quando entrei para a Universidade de Aveiro, falei das minhas dificuldades no Gabinete Pedagógico, que mobilizou esforços no sentido de criar as condições com vista ao meu sucesso escolar. Todos foram extremamente sensíveis à minha situação. Foi constituído um grupo de voluntários e, nos testes de avaliação, um voluntário escrevia o que eu dizia. Conheci também a Directora do meu curso – Licenciatura em Administração Pública – foi através dela que fui chamado pelo Centro de Reabilitação Rovisco Pais para colocar as próteses que tenho actualmente.

Também devo o meu sucesso à comunidade escolar, professores, funcionários e alunos que me proporcionaram todas as condições para eu terminar o curso. Enquanto estive na Universidade de Aveiro, só aceitei ajuda quando foi absolutamente necessário, não foi preciso muita, porque uma coisa que eu sempre prezei foi ser “autónomo”.

Uso as próteses todos os dias, pois dão-me muita autonomia … posso escrever (com caneta ou lápis), desenhar, trabalhar com computador, comprimentar as pessoas “aperto de mão”, comer e ir ao WC.

Apesar de ter as duas próteses que têm a mesma funcionalidade, uso mais o braço direito, por isso, utilizo algumas funcionalidades específicas no computador, por exemplo, as teclas presas.

No trabalho também as utilizo para fazer fotocópias, desfolhar um caderno ou livro, agarrar em objectos, etc.

Na realidade, inicialmente, tive dificuldades em usá-las, porque é algo estranho ao corpo e são um pouco pesadas, mas elas permitem-me ser mais autónomo no meu dia-a-dia, sem elas também o conseguiria, mas, nesse caso, teria de ter o local de trabalho todo adaptado. Para isso não acontecer, a prótese é, sem dúvida, um bem essencial para ter a minha própria autonomia.

próteses juntas

atletismo 1

O atletismo

Fui convidado em Fevereiro de 2009, pelo Ricardo Esteves, em nome da Associação ADERCUS/RECER para começar a treinar e competir. Passou um ano em que tive de me adaptar à nova modalidade, visto que pratiquei natação anteriormente. Na natação flutua-se enquanto que no atletismo tive de vencer a gravidade.

Neste momento estou numa fase de especialização, sou atleta de meio fundo e fundo. Já participei em várias provas nacionais e tenho vindo a progredir. Não vou esconder as minhas intenções … ser chamado à selecção e representar Portugal no estrangeiro.

Vou dar o meu melhor todos os dias sabendo que não vai ser fácil, mas não me falta força e esperança…

O trabalho

O futuro

No futuro, quero continuar a treinar, ambiciono conquistar cada campeonato ou torneio em que participarei.

Trabalho na Escola Secundária de Oliveira de Bairro – Centro Novas Oportunidades, como Técnico Administrativo. Gosto do que faço, tenho feito um bom trabalho e espero continuar a merecer o lugar que ocupo por muitos anos.

E, claro, quero continuar a namorar.

com a namorada1º Sou um privilegiado….porque sobrevivi a um brutal acidente e um privilegiado porque sou uma pessoa muito feliz …

2º A vida é demasiado importante para olhar para trás e lamentar o que aconteceu … para a frente é que é o caminho.

3º Ser feliz é o meu objectivo. Qual é o teu?

4º Traça o teu trilho e busca a felicidade!

“Apesar de se ser deficiente não se pode deixar de lutar, procurar…o melhor da vida.

A vida apagou os meus braços, mas não apagou a vontade de viver.”

Curiosidades da minha vida

http://www.youtube.com/Guerra2702

http://www.youtube.com/user/Guerra2702#p/a/u/2/2mP1DaBtv1w

http://www.solidariedade.pt/sartigo/index.php?x=253

http://www.independentedecantanhede.com/jornal/index.php?option=com_content&task=view&id=928&Itemid=4

http://www.youtube.com/watch?v=5WioDBM62TE

http://www.youtube.com/watch?v=NLde7RAqujc

http://www.youtube.com/watch?v=RwGfP4zktSo&feature=related

http://www.youtube.com/watch?v=C1lZL1xtb5M&feature=related

http://www.youtube.com/watch?v=XegOgol-PPM&feature=related

http://www.youtube.com/watch?v=cgzDFKqndG0&feature=related

http://www.youtube.com/watch?v=1EckKCT5JB4&feature=related

http://www.youtube.com/Guerra2702#p/u/5/pKYSxly26Uo

Um breve olhar sobre o Pedro

Conheci o Pedro em Setembro de 2003, quando ingressou na Universidade de Aveiro, no curso de Licenciatura em Administração Pública e cedo nos tornámos amigos.

Como coordenadora do Gabinete Pedagógico, da Universidade de Aveiro, e, sendo uma das minhas funções o apoio aos estudantes com necessidades especiais, tive o privilégio de acompanhar o Pedro ao longo dos quatro anos do seu curso, que terminou sem reprovar um único ano.

Foi um estudante esforçado, responsável e muito autónomo, solicitando apoio apenas quando absolutamente necessário. Pessoa de grande tenacidade e um lutador incansável para atingir os objectivos de tudo a que se propunha.

Responsável nas suas tarefas académicas, não o era menos nas desportivas, tendo conquistado o título de campeão nacional na categoria de natação adaptada.

E não parou, actualmente está empenhado no atletismo – até onde o levarão as suas pernas? Bem longe, não duvido, pois o seu percurso de pouco mais de um ano nesta modalidade, está já a fazer história e em cada competição supera as suas próprias marcas.

Também não deixou os “assuntos do coração” por mãos alheias, apaixonou-se pela sua “deusa”, como gosta de se referir à sua namorada de há já alguns anos, também ela ex-aluna da Universidade de Aveiro.

Uma palavra para a Patrícia, que o conheceu já com os braços amputados, apaixonou-se por ele e vivem, até hoje, um amor feliz.

Num mundo, onde, infelizmente, se valoriza tanto o aspecto físico em detrimento de tudo o que realmente tem valor, a Patrícia viu no Pedro a verdadeira beleza, o que muito diz do seu carácter e foi esse carácter que o Pedro viu na Patrícia, muito mais importante do que a cara bonita e simpática que ela tem.

A história de vida do Pedro Guerra serve de incentivo, para que outros, em situação idêntica, se inspirem na sua força, que a coragem com que se adaptou às mudanças radicais na sua vida e o sucesso que tem tido tragam esperança a todos e saibam que é possível ser feliz em qualquer condição.

Na Universidade de Aveiro, há outros alunos com a força do Pedro. Não será possível contar as vidas de todos, alguns podem nem querer, mas vejamos nesta história do Pedro uma homenagem a todos os que, não só na Universidade de Aveiro, mas, noutras universidades, noutros estabelecimentos de ensino, em todo o país, em todo o mundo, lutam com tanta coragem por uma vida feliz e digna e que as incapacidades nunca matem os sonhos e a vontade de voar cada vez mais alto.

Gracinda Martins

Gabinete Pedagógico

Reitoria

Universidade de Aveiro

Um Comentário a “SE EU CONSIGO, TU TAMBÉM CONSEGUES – Pedro Guerra e Gracinda Martins”

  1. Olá, o meu nome é Elisabete e sou aluna do 12º ano da Escola Básica/Secundária Dr. Hernâni Cidade de Redondo. No âmbito da disciplina de Área de Projecto, eu e outro colega, decidimos fazer um trabalho cujo tema seria a deficiência. Começou como algo muito breve, mas agora estamos empenhados em combater algumas ideias preconcebidas. Criámos um blog ( http://vencerarealidade.blogspot.com ) com o objectivo de tornar pu’blico o nosso trabalho. Achamos o seu testemunho uma verdadeira histo’ria de coragem. Gostari’amos muito, se estivesse interessado, que nos desse o seu testemunho para o nosso blog. Aguardamos uma resposta. Aqui fica o meu e-mail elisabetetereso@hotmail.com.
    Agradecidos,
    Elisabete e Pedro